4 de jan. de 2008

Parte 02

Os olhos de Terance se arregalaram com as palavras do jovem Janus. Levantou-se e olhou a sua volta. Realmente, não se lembrava de nenhuma formação igual àquela na região, o garoto estava falando a verdade. Deixou o garoto em seus pensamentos e se arriscou para dentro da cratera, mas retirara o pé de sua borda no mesmo instante que o colocara para dentro. Um arrepio lhe percorreu a espinha ao sentir o mal que ela irradiava. Cerrou os olhos e olhou para o garoto, não sentia nele a mesma essência que sentia na cratera. Janus talvez tivesse tido apenas sorte por sobreviver ao que destruira Sunspeak. Aproximou-se dele e se abaixou novamente, encarando os olhos azuis e apagados do garoto.
-O que aconteceu aqui, Janus? O que aconteceu com sua vila?
O olhar de Janus parecia perdido em algum ponto no lugar que um dia fora seu lar. Uma única lagrima escorreu pela sua face antes de responder, mais uma vez, com sua voz rouca e fraca.
-Não... Não sei... Eu simplesmente acordei... E tudo tinha desaparecido... Tudo...
Terance olhou para o garoto sentindo o coração apertar ao ver a tristeza naquele rosto to jovem. Janus não parecia ter mais que quinze ou dezesseis anos. O paladino se ergueu, estendendo sua mão ao garoto, com um sorriso que era marca registrada dos Krane Sisck, um sorriso bondoso que iluminava até os corações mais sombrios.
-Venha... Não tem mais nada pra você aqui... Por que não vem comigo? Minha casa é bem grande, e minha mãe ficara mais que feliz em recebe-lo. Você precisa esfriar a cabeça agora... Se quiser podemos descobrir o que aconteceu com sua vila... Mas até lá, você precisa estar forte! Que me diz?
As palavras do paladino pareceram se perder no ar, Janus não demonstrara nenhuma reação ao gentil convite. Terance ficou algum tempo em silencio, podia-se ouvir a brisa acariciando-lhes os rostos e o farfalhar das folhas próximas. Janus finalmente se manifestou. Desviou o olhar na direção do de Terance e respondeu, mesmo que sem animo.
-Tá... Tudo bem... Eu vou com você...
Terance sorriu com a resposta e ajudou o garoto a se levantar. Janus estava tão perdido em seus pensamentos que mal notara o belo cavalo que pastava a alguns metros deles, esperando pacientemente por seu dono. O paladino o ajudou a montar e subiu logo em seguida, virou o cavalo na direção do Vale dos Krane e partiu.
Nenhuma palavra fora dita durante o rápido percurso. O cavalo de Terance era bem rápido e a viajem não durara mais que quarenta minutos. Era quase meio dia quando puderam avistar, não muito longe, as fumaças brancas que saiam das chaminés das casas anunciando que o almoço estava sendo preparado. Ao se aproximar mais, porem, não foram em direção à vila. Em um ponto na estrada, Terance fez uma curva, entrando por um estreito caminho de terra. Passaram por um portão de madeira e seguiram a mesma estrada por mais dez minutos até chegar em uma bela casa de madeira, tipicamente usada como sede de alguma grande propriedade. Ao olhar em volta, Janus pode ver campos de cultivo e pastos onde um rebanho considerável de vacas e ovelhas pastava tranqüilamente. Terance abriu a porteira do pasto e soltou se cavalo que correu alegremente pelo campo.
-Vamos! Pelo cheiro minha mãe deve ter feito porco pro almoço! Chegamos bem a tempo!
O garoto acompanhou seu anfitrião até a entrada da casa, o cheiro que vinha lá de dentro era realmente muito bom, e apenas lembrava-o mais ainda que não comia nada desde a noite anterior ao estranho ocorrido em Sunspeak. Pouco acima da porta de entrada havia um brasão, predominantemente dourado, com dois dragões entrelaçados segurando o escudo, adornado por uma espada e uma balança, havia também uma inscrição abaixo do escudo, porem não estava escrito em nenhuma língua que pudesse entender, eram letras curvas e delicadas, muito belas. “Élfico” foi a primeira coisa que passou em sua mente, mas já vira textos élficos na casa de seu tio e não se pareciam com aquilo.
-É dracônico! Não sei exatamente como se pronuncia, mas ta escrito “Que a luz dourada da Justiça queime o mal do mundo”. – Disse Terance como se lesse a mente de Janus – Agora vamos, pode entrar, sinta-se em casa!
Janus entrou, com certa timidez, na casa de Terance, e ouviu o som de pratos sendo colocados sobre a mesa e a voz de uma mulher.
-Terry? É você?
-Sou eu sim, mãe! E eu trouxe uma visita se você não se importar!
-Claro que não, meu filho! Pode vir, já esta na mesa!
-Vem, Janus! Você vai provar o porco assado da minha mãe! É o melhor de toda a cidade!
Janus acompanhou seu anfitrião até o que parecia a sala de Jantar. Havia uma longa mesa de madeira, com panelas ainda fumegando e um enorme porco assado sobre uma travessa. Sentados à mesa estavam uma senhora já na casa dos quarenta, de cabelos e olhos castanhos iguais os de Terance e mais dois garotos, na faixa dos doze anos, com um olhar curioso na direção de Janus. Os dois eram idênticos, o mesmo cabelo loiro na altura dos ombros e sorriso de quem está sempre pronto para aprontar alguma coisa. Haviam dois lugares vazios ainda.
-Gente! Esse é o Janus... Ele é de Sunspeak!
-Era... – disse Janus ainda com certo desanimo
-Ah, deixemos isso pra depois, Janus, agora é hora de comermos! Essa é minha mãe, Alanna, e meus irmãos, Teodore e William! Sinta-se e em casa!
Janus se sentou em um dos lugares vazios um pouco sem graça, sem demora a mãe de Terance lhe serviu um generoso pedaço de porco e alguns legumes. O garoto sentiu o estomago roncar com o cheiro de comida e deixou a timidez de lado, atacando a comida. Ficou quieto o almoço inteiro enquanto Terance contava à sua mãe como o encontrara ou falava sobre suas andanças aquela manhã. O clima familiar naquela mesa parecia tão contagiante que, por vários minutos, Janus conseguira se sentir bem.

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